Juliet & Juliet parte de uma história que praticamente todo mundo conhece: duas jovens de famílias rivais se apaixonam enquanto carregam um conflito que começou muito antes delas. Mas o GL não se limita a pegar a premissa de Romeu e Julieta e trocar o casal protagonista. A cada episódio, a série encontra novas maneiras de adaptar personagens, símbolos e conflitos da obra de Shakespeare para a história de Tokyo e Blue. Leia sobre onde assistir Juliet & Juliet e detalhes sobre o GL aqui.
Esse texto é uma colaboração especial de uma autora convidada 💖 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem, necessariamente, a visão do No Mundinho do GL — mas adoramos abrir espaço pra múltiplos opiniões e perspectivas!
Por Larissa Gonçalves
Quando Juliet e Juliet foi anunciado, não fiquei animada e ansiosa pela adaptação, já vimos essa história milhares de vezes e como para um GL o final feliz é sempre esperado, parecia que ia ser mais uma adaptação que simplesmente se beneficia da premissa, mas que não adapta de fato a obra ou o faz de forma bem superficial. E como adorei estar enganada e cada semana percebo mais e mais elementos adaptados para o mundo moderno como poucas adaptações desse clássico conseguiu fazer.
Entre as rosas: as referências a Romeu e Julieta
A igreja se torna uma biblioteca; o frei que acoberta os encontros, a bibliotecária, simples e uma poderosa adaptação de um dos elementos de uma obra tão conhecida, para um contexto escolar e moderno. Essa obra adapta e brinca com o universo em que está inserida, quando Tóquio e Blue se declaram na biblioteca elas usam as próprias obras de Shakespeare, você se apaixona por elas e pela inocência do amor que está sendo construído.

Romeu começa a história ainda apaixonado por Rosalind, Blue começa a trama terminando um namoro no episódio 1, e assim como Romeu é ela quem invade o território inimigo ao mudar de província, mas no episódio 2 é Blue é quem está presa na torre como Julieta, e é Tokyo quem sobe até a sacada para professar seu amor, como Romeu – cuja cena foi brilhantemente realizada trocando sonetos e monólogos sobre o que é a face do amor – por murmúrios sem sentido e um primeiro beijo digno da adolescente que elas são – provavelmente se elas contarem essa história, houve poesia ali.
Uma das minhas diversões se tornou capturar quais elementos dos dois personagens será adaptado para cada uma. Pois apesar de todos conhecerem o famoso final: “o casal protagonista morre”, eles não são os únicos a ter esse mesmo destino, e as mortes de Teobaldo e Mercúcio são ainda mais importantes para a trajetória dessa história.
Pelo que observei da história até o momento, temos dois fortes candidatos, Yi o irmão do meio da Família Khonpirum e o mais próximo da irmã mais jovem Tokyo, carrega consigo a violência e ira cega, essências do personagem Teobaldo, enquanto Packard, a prima de Blue, para o papel de Mercúcio – alguém que recusa a briga, mas para proteger se interpõe.
Porém a mesma Packard, no episódio 3 encarna outro personagem, Benvolio, considerado como o pacificador e a voz da razão no meio da rixa, entre as famílias. Pois ao ser questionada do que ela acha de toda essa rixa, sendo explicado, pelo menos por um lado da história que nasceu da morte de seu pai, ela é sensata ao dizer que nada de bom viria de uma vingança, o traz para Blue a paz de espírito de ter pelo menos uma aliada com o início do namoro, e a personagem se torna a primeira guardiã o romance secreto com Tokio. E para o futuro espero que ela tenha o mesmo final, ou seja, não morra como Mercúcio, e este seja representado apenas pelo pai dela a 17 anos atrás.

Basicamente todos os personagens representam ao menos alguma figura da obra original. As amigas da Tokyo, remetem a Ama de companhia de Julieta, existe um vínculo de trabalho (as dívidas dos seus pais) com a família, o que nos faz sempre suspeitar da personagem, mas existe amizade verdadeira, a Madre Superiora como da diretora da escola, age como o Príncipe de Verona no episódio 4, preocupada em como a briga entre as famílias irá refletir nos cofres (o orçamento da escola), e buscando colocar Blue e Tokyo para trabalharem juntas. O ex namorado de Blue é o antigo amor Rosalind, prima de Julieta, mas também é o Conde Paris o noivo perfeito, o casamento arranjado que culmina no plano de que leva a morte de Juliet, Paris é mais uma morte na história, pois Romeu antes de se matar, o assasina por acreditar que ele era culpado de Julieta tirar a própria vida – final esse que será de reponsabilidade da impulsividade do próprio Romeu.
Mas além, de todas as referências explícitas Juliet e Juliet acerta também no subtexto
Uma rosa com qualquer outro “nome” teria o mesmo perfume?
A pergunta acima é realizada por Julieta, e segue outra série de questionamentos: “Por qual razão Romeu?”; “Se tivesse outro nome, poderíamos ficar juntos?” Essas perguntas de seu monólogo questionando a si mesma os seus sentimentos e ao final sua conclusão é que a essência é o que importa, se você ama alguém é por quem a pessoa é, por toda a sua vida e experiências, se você deseja algo seja diferente, como pode dizer que a ama de verdade. E o termo “nome” na obra original não deve ser lido apenas pelo significado literal, mas pela carga social que ele carrega.

Ambos se apaixonam sem se importar com o que a pessoa representa socialmente, o amor nasce livre de de rótulos sociais, mas mesmo reconhecendo esse amor, não se nega a importância e o perigo da sociedade. Tokyo pode não ter recitado o monólogo na série, mas a gente sente o seu medo ao voltar com o uniforme com o sobrenome da Blue exposto em seu peito – tão simbólico – ela se agarra aquele nome escondendo e o protegendo dos olhares de seu pai e irmão.
Precisamos recordar que o sobrenome funciona como uma barreira imposta pela sociedade , e como diz a música tema da série – “Um dia nossos nomes serão outra forma de dizer amor”, pois existe a obra original subverte o peso social, indo além da rivalidade familiar da trama, para uma metáfora do manifesto sobre a fluidez do ser.

A conclusão de Julieta é uma poderosa fonte de libertação: o amor e a identidade de uma pessoa não mudam de valor apenas porque não se encaixam nas normas tradicionais e esperadas da sociedade. E dentro desse questionamento temos como pano de fundo uma história sobre um amor intenso que precisa existir nas sombras, sob o risco de violência extrema e rejeição familiar – esses temas lhe soam familiar, a vivência de algum grupo de pessoas?
Mas as rosas não estão ali apenas para representar o amor, também é presságio para as personagens, outra parte da simbologia da história original sendo o contraste entre as rosas vermelhas e brancas um o pilar central nesse romance
Uma praga para duas casas
Na obra original, as rosas além de identificarem os Capuletos (Vermelhos) e Montecchios (Brancos) são um lembrete da história da Inglaterra; do fim de uma guerra que ficou conhecida pela Guerra das Duas Rosas, conflito de 30 anos que termina com o casamento entre as duas linhagens rivais que unificou os lados, criando a Rosa Tudor (uma rosa metade vermelha, metade branca), que simboliza a reconciliação e a unidade nacional, um conceito de união de opostos e o nascimento da própria Inglaterra de Shakespeare.
Assim o autor cria uma história onde vidas são destruídas pela guerra de duas famílias, a qual o ódio nem sabiam mais origem, mas fazem da próxima geração seu próprio campo de batalha, e onde existe apenas a punição, os corpos de Romeu e Julieta ao final da peça são apenas mais dois em um amontoado de outros corpos jovens – na primeira parte citei algumas mortes mais famosas -, mas o que torna suas mortes emblemáticas é que elas não são resultado de um conflito direto, mas por acabarem como resultado da crença da ausência de vida de seus parceiros.

Ao final do episódio 4, Blue e Tokyo, cantando e renovando a sua promessa de ficarem uma ao lado da outra, com a promessa de dedinho – ainda estamos falando de um GL – elas estão cercadas por balões vermelhos e brancos, na festa da amizade com vários outros jovens a sua volta é um momento de um união e paz, um lembrete e um símbolo do que o amor puro pode conquistar e que existe a esperança de uma rosa metade branca e vermelha. E quando todos cantam juntos sobre ter sonhos pelo caminho é uma prece por um futuro, ou seja, apesar do seu papel central na trama, elas também estão cercadas de uma geração que pede o fim do conflito, eles querem apenas viver seus sonhos sem estarem presos a uma contenda que nunca foi deles, onde brancos e vermelhos não se odeiam, apenas por existir. E meu coração fica à mão, a cada semana, por cada um dos personagens secundários que podem não encontrar seu final feliz e não pediram para herdar o ódio, mas essa trama ainda é uma adaptação.
Com a sacada genial, como mencionado, não temos uma única encarnação dos personagens; então quem terá o papel de Teobaldo e Mercúcio? Com o último encontrando seu fim, pela mãos do primeiro, ao tentar proteger seu melhor amigo do ódio injustificável, mas finalizando sua vida rogando uma praga para as duas casas, sua morte desencadeia a ira de Romeu que por vingança mata Teobaldo, reiniciando o ciclo de ódio agora para uma nova geração e inserindo os amantes no caminho da morte.
A Mais Excelente e Lamentável Tragédia
E por isso, a cada semana, elogio mais essa adaptação, o que se esquece da história mais consagrada sobre o amor, e essa série respeita o seu material fonte é a pureza do amor do seu casal principal e a angústia, qual será o tamanho da tragédia no final? É a demonstração de como adultos com suas crenças arraigadas destroem aqueles que deveriam proteger, e tudo se torna ainda mais poético porque aqui temos uma Julieta e Julieta e rogamos para elas sejam mais sensatas, que seus antecessores.
Essa autora não leu a novel e até o momento saíram apenas 4 episódios, no aguardo no que essa série nos reserva.
Dica: coloque o que está negrito no google para saber mais
Fonte:
Tradução da música tema
Esse texto é uma colaboração especial de uma autora convidada 💖 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem, necessariamente, a visão do No Mundinho do GL — mas adoramos abrir espaço pra múltiplos opiniões e perspectivas!
Escrito por: Larissa Gonçalves








