FreenBecky, Freen Sarocha e Becky Armstrong, quem decide? Elas (sempre)

FreenBecky

Esse texto é uma colaboração especial de uma autora convidada 💖 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem, necessariamente, a visão do No Mundinho do GL — mas adoramos abrir espaço pra múltiplos opiniões e perspectivas!


Quando “liberdade artística” vira outro tipo de controle 

Há uma narrativa que vem se avolumando no fandom desde que Freen Sarocha e Becky Armstrong saíram da IdolFactory: a de que “fãs do duo” seriam controladoras por não desejarem ver Freen e Becky em cenas românticas ou sexuais com outras pessoas em trabalhos solo. De outro lado, parte das “fãs solo” – e até quem se diz fã do duo – defendem que elas sim respeitam as atrizes, respeitam tanto que desejam essas cenas com outros parceiros. O curioso – e preocupante – é que essa crítica ao “controle” esconde outra forma de controle: impor ao corpo, à carreira e à intimidade das atrizes um roteiro escrito pelas expectativas do público. Seja qual for.

Neste artigo, proponho olhar para esse conflito com mais calma e complexidade: nem demonizando toda preocupação com limites como “controle tóxico”, nem romantizando qualquer exigência feita em nome da “liberdade artística”.

O mito da “prova” de que são atrizes

Freen-Sarocha-em-The-Stain-1024x422 FreenBecky, Freen Sarocha e Becky Armstrong, quem decide? Elas (sempre)
Freen Sarocha no filme The Stain. Foto: Reprodução

A questão do envolvimento ficcional romântico das atrizes em obras diversas (fora de séries GL) vem se tornando arma num cabo de guerra do fandom. Quem defende isso quer “vencer” os fãs do duo que ficariam incomodados, transformando o desejo das atrizes em troféu intelectual (“vejam, elas beijam outros e vocês surtam!”).

Mas onde está o controle nessas percepções autênticas? Quem consegue “brincar” com o próprio ciúme não estaria sendo mais verdadeiro com a relação saudável que se deve ter com artistas?

A lógica é simples – e manipuladora: quanto mais elas se afastarem ou se sentirem livres da imagem de duo GL que as consagrou, mais “legítimas” seriam como profissionais aos olhos de quem usa isso para humilhar o outro lado. O bom senso que pregam (“são atrizes, podem beijar quem quiserem”) vira seletivo quando serve ao ego da vitória simbólica.

Esse discurso parte de duas distorções sérias. A primeira é a ideia de que cena de sexo ou de beijo com múltiplos parceiros é um tipo de “prova de fogo” universal da atuação. Não é. Talento não se mede apenas por grau de exposição íntima, mas por uma combinação de fatores: construção de personagem, profundidade emocional, nuance de expressão, ritmo, presença em cena, química com o elenco, capacidade de segurar uma narrativa longa. Reduzir o ofício de atriz à disposição de beijar ou simular sexo com diferentes parceiros é achatá-lo.

Freenbecky-em-The-loyal-pin FreenBecky, Freen Sarocha e Becky Armstrong, quem decide? Elas (sempre)
Freenbecky em The Loyal Pin. Foto: Reprodução

A segunda distorção é ignorar o fato concreto: em cinco anos de auge, elas não fizeram isso. Não por falta de oportunidade de trabalho, mas, tudo indica, por escolha – delas, de suas equipes, ou de ambas as coisas. Quando um padrão se repete por tanto tempo, ele deixa de ser acaso e passa a ser projeto. Se ainda assim parte do fandom insiste em tratar essa opção como “covardia” ou “limitação”, o que está em jogo não é uma avaliação honesta de carreira, e sim frustração com o fato de que a fantasia individual não foi atendida.

Quando criticar “controle” é, também, controlar

FreenBecky-em-Uranus FreenBecky, Freen Sarocha e Becky Armstrong, quem decide? Elas (sempre)
FreenBecky em Uranus. Foto: Reprodução

Há, hoje, uma demonização automática da palavra “controle” no fandom. Basta alguém dizer “não me sinto confortável com a ideia de vê-las em cena íntima com outros” ou “acho legítimo que elas queiram preservar a imagem de casal” para ser rotulado de controlador, obcecado, tóxico, atrasado. A crítica vem, especialmente, de quem usa o discurso de “liberdade artística” como arma: “vocês querem prender as atrizes num casal; eu, ao contrário, defendo que elas possam atuar com quem quiserem”.

O problema é que, muitas vezes, esse discurso não para no “elas podem”. Ele desliza para o “elas deveriam”, “elas têm que”, “se não fizerem, não são atrizes de verdade”. É aí que, sem perceber, quem se coloca como antídoto ao controle acaba praticando outra forma de controle. Sai o “não quero que elas beijem mais ninguém” e entra o “quero que elas beijem outros para provar algo a mim”. Em ambos os casos, continua sendo o fã definindo, de fora, qual é o roteiro “correto” para o corpo e para a carreira delas.

Em outras palavras: não existe “lado puro” nessa briga. De um lado, há quem queira cristalizar para sempre a imagem de casal em todo e qualquer contexto, como se as duas personagens e as duas atrizes fossem a mesma coisa. De outro, há quem queira romper essa imagem a qualquer custo, e medir o valor artístico delas pela obediência a um teste que não foi elas que escolheram. Nos dois extremos, o eixo é o mesmo: o desejo do público se sobrepondo ao direito de escolha delas.

Direito à intimidade, ao corpo e ao método de trabalho

FreenBecky-ensaio-1024x462 FreenBecky, Freen Sarocha e Becky Armstrong, quem decide? Elas (sempre)
FreenBecky ensaio. Foto: Reprodução

Mesmo que Freen e Becky sejam um casal real ou não – hipóteses que permeiam o imaginário do fandom inteiro –, isso não invalida em nada o direito que elas têm de preservar a imagem de casal no plano profissional. Ao contrário: torna esse direito ainda mais sensível. Ter ciúmes, sentir desconforto com determinadas cenas, querer proteger a relação da sobrecarga emocional de certas narrativas, tudo isso é da ordem do humano, não de falha de qualquer ordem.

Se elas optam por não fazer romances intensos com outras pessoas, seja porque preferem preservar a própria dinâmica, seja porque sentem que, por enquanto, a química em dupla é o eixo do trabalho delas, isso é uma escolha legítima, tanto íntima quanto profissional. Preservar a “incrível imagem de química de casal” não é crime contra a arte; é um recorte possível dentro de uma carreira que ainda está em desenvolvimento. A ideia de que toda atriz tem obrigação de se dispersar em múltiplas parcerias românticas para ser considerada “séria” diz muito mais sobre o olhar de quem cobra do que sobre a realidade do ofício.

Aqui entra um ponto crucial: atrizes também têm direito à intimidade e à autodeterminação corporal. Isso inclui o direito de dizer “sim” ou “não” a determinadas cenas, parceiros, níveis de nudez ou de simulação sexual. O fato de serem figuras públicas, com uma imagem fortemente associada a um romance, não transforma o corpo delas em propriedade coletiva do fandom, nem autoriza que alguém trate seus limites como fraquezas ou defeitos de caráter.

Parasocialidade e a ilusão de acesso total

As teorias sobre relações parasociais explicam bem esse fenômeno. Quando o público acompanha a vida de celebridades de forma intensa, diária, quase íntima, cria-se a sensação de que se conhece aquela pessoa “por dentro”, como se fosse amiga ou parte da família. A fronteira entre o que é público e o que é privado fica turva. Desse lugar, muitos fãs passam a achar legítimo opinar sobre tudo: com quem a artista deveria ou não se relacionar, que cenas deveria ou não fazer, como deveria gerenciar ciúmes, limites, traumas, desejos.

Esse excesso de familiaridade imaginária produz um tipo de cobrança moral (“se elas amassem mesmo a arte, fariam X”; “se não têm nada a esconder, fariam Y”) que se esquece de um ponto básico: a artista continua sendo sujeito de direitos, não personagem à disposição infinita da plateia. O fandom confunde proximidade afetiva com poder de decisão. Confunde identificação com autorização.

No caso de Freen e Becky, isso se intensifica porque elas representam, para muita gente, algo maior do que duas atrizes: representam visibilidade sáfica, representatividade afetiva, fantasia romântica, alívio em relação a anos de vazio de casal GL com impacto global. Não é trivial para o público aceitar que elas, como pessoas, possam ter limites, fragilidades, preferências que não encaixam em todas as expectativas depositadas sobre seus ombros. Mas é exatamente essa aceitação que define se a relação fã-artista vai ser minimamente saudável ou não.

FreenBecky, Freen Sarocha e Becky Armstrong, quem decide? Elas (sempre)

Quando “liberdade artística” vira outro tipo de controle  Há uma narrativa que vem se…

FreenBecky rompem com Idol Factory: Saiba todos os detalhes!

O MundinhoDoGL foi pego de surpresa com uma notícia que mexeu com todo mundo: Freen Sarocha e Becky…

GAP The Series: O marco histórico do amor sáfico

Podemos falar só mais um pouquinho sobre GAP The Series? Muito além dos números impressionantes (a…

Defender, discordar, mas sem transformar tudo em teste moral

Nada disso significa que o fã precise concordar com todas as escolhas de carreira. É legítimo alguém dizer: “eu, pessoalmente, gostaria de vê-las em projetos completamente diferentes”, ou “eu, como espectador, tenho curiosidade de ver Becky em um papel X ou Freen em um papel Y que rompam a imagem do casal”. O problema não é o desejo em si – é quando ele vira exigência, chantagem emocional ou régua moral para medir seu valor como atrizes e como pessoas.

Também é legítimo que fãs do duo sintam desconforto com a ideia de romances com outros parceiros, especialmente num mercado em que a representatividade sáfica ainda é escassa, e cada casal visível parece carregar o peso simbólico de uma geração. Quando alguém, desse lugar, expressa: “eu prefiro que elas sigam trabalhando juntas, não quero que se dispersem em romances com outros”, isso não é automaticamente “controle” – pode ser apenas expressão de afeto, medo de perder um espaço simbólico raro, ou leitura estratégica de mercado.

A fronteira entre cuidado e controle está, muitas vezes, em como formulamos o que sentimos. Dizer “eu não gosto da ideia de X” é diferente de “elas não podem fazer X”. Dizer “eu gostaria de ver Y” é diferente de “se não fizerem Y, são covardes/falsas/medíocres”. O fandom poderia ganhar muito se aprendesse a falar mais na primeira pessoa (“eu sinto”, “eu desejo”, “eu temo”) e menos na terceira normativa (“elas deveriam”, “elas têm que”).

Autonomia verdadeira: o direito de dizer sim, e o direito de dizer não

No centro de tudo isso está a questão da autonomia. Não existe liberdade artística verdadeira se ela só é reconhecida quando a artista faz o que eu quero. Autonomia não é apenas o “direito de atuar com quem quiser”; é também o direito de repetir uma parceria, de construir uma trajetória em dupla, de recusar certas cenas, de preservar a intimidade de uma relação real, de experimentar formas de atuação que não passam necessariamente por nudez ou sexo. Poder é poder tudo, fazer o que quiserem, sem nenhum tipo de explicação sendo necessária. Aos fãs resta o doce prazer de apreciar trajetórias de duas jovens de múltiplos talentos em construção.

Quando “liberdade artística” vira outro tipo de controle

Se Freen e Becky, por qualquer razão – estratégia de imagem, conforto pessoal, ciúmes, proteção da relação, preferência estética –, escolhem não se engajar em romances com outros parceiros ou parceiras, essa decisão deve ser respeitada como parte de sua liberdade artística. Não pode ser usada como munição para questionar seu talento, sugerir medo do fandom ou receios comerciais. Da mesma forma, se decidirem fazer algo diferente, essa mudança deve ser lida como escolha delas – não como “traição” a um ideal de pureza de casal.

Talvez o debate que o fandom precise encarar não seja “quem controla mais”, mas: estou disposto a reconhecer que essas duas mulheres têm direito ao próprio corpo, à própria intimidade, ao próprio ritmo de carreira – mesmo quando isso não coincide com a fantasia que eu projetei sobre elas? Enquanto a resposta for não, a palavra “controle” continuará apenas trocando de mãos, sem nunca sair verdadeiramente de cena.

Autonomia verdadeira

FreenBecky – quem decide?

Sempre foi elas e sempre será elas. Autonomia é o direito de dizer sim e o direito de dizer não – ao corpo, à intimidade, ao ritmo de carreira. Enquanto o fandom brigar por controle, perde de vista o essencial: soltar as rédeas e confiar.


Esse texto é uma colaboração especial de uma autora convidada 💖 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem, necessariamente, a visão do No Mundinho do GL — mas adoramos abrir espaço pra múltiplos opiniões e perspectivas!

Escrito por:

Rolar para cima