Critica Whale Store XOXO: Um GL de conforto que surpreende

Whale Store - Cartaz

Esse texto é uma colaboração especial de uma autora convidada 💖 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem, necessariamente, a visão do No Mundinho do GL — mas adoramos abrir espaço pra múltiplos opiniões e perspectivas!


Whale Store XOXO chegou com a promessa de ser um GL leve, fofo e aconchegante, e cumpriu exatamente isso, além de entregar uma experiência ainda mais impactante do que o esperado. Em um cenário em que muitas produções insistem em explorar relações tóxicas e conflitos exagerados, essa série Tailandesa, por outro lado, apostou no caminho oposto: priorizou a maturidade, o diálogo e o crescimento mútuo

Nesse sentido, as red flags são deixadas de lado e, em contrapartida, substituídas por green flags que celebram relacionamentos saudáveis, respeito e cumplicidade. Assim, pode até parecer “chato” para quem espera brigas e drama constante, porém é justamente nesse aspecto que Whale Store XOXO se destaca: ao mostrar que o amor verdadeiro não precisa ser uma guerra, mas sim um espaço de cura, confiança e apoio.

Além disso, com apenas 10 episódios, a trama consegue equilibrar leveza, emoção e reflexão. Desse modo, o drama se transforma em uma obra de conforto dentro do universo GL, consolidando-se como uma opção diferenciada e memorável para quem busca histórias autênticas e acolhedoras.

Wan: luto, e a reconstrução de si mesma, Maewnam: ternura como força

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Milk Pansa como Wan – Whale Store XOXO – Foto: Divulgação/GMMTV

Interpretada por Milk Pansa, Wan é o coração pulsante da série. Não se trata de uma heroína romântica clássica, mas de uma mulher em luta contra perdas concretas: a morte do pai, o peso das dívidas, a responsabilidade de manter a Whale Store viva. Sua trajetória mostra como o luto não é apenas tristeza, mas também uma força transformadora. Wan não precisa ser resgatada, ela se ergue sozinha, mesmo quando a dor parece insuportável. A escolha de Milk em entregar uma atuação contida, cheia de silêncios e olhares perdidos, dá ao público a sensação de que estamos diante de alguém real. Wan representa uma geração inteira de jovens que precisam amadurecer diante das circunstâncias.

Do outro lado está Maewnam (Love Pattranite), a professora que todos parecem admirar e a faz tudo do bairro. Mas por trás da leveza e do carisma está alguém que também enfrenta medos e inseguranças. A personagem de Love desconstrói a ideia de que a força só existe no embate. Sua doçura é sua maior arma, sua ternura se torna uma forma de resistência. Em um universo audiovisual ainda acostumado a glorificar relações turbulentas, Maewnam mostra que a verdadeira intensidade pode estar em um gesto simples: apoiar Wan, ouvir, estar presente. Love entrega uma atuação que equilibra charme e fragilidade, criando uma Maewnam que encanta sem precisar forçar nada.

O encontro: amor como cotidiano

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MilkLove como Wan e Maewnan – Divulgação GMMTV

O que une Wan e Maewnam não é um destino espetacular ou coincidências artificiais. É o cotidiano. É o convívio no mercado, os diálogos interrompidos pelo trabalho, os pequenos gestos que constroem intimidade. Whale Store XOXO prova que o romance não precisa ser um fogo de artifício para ser memorável; ele pode ser um fogo constante, que aquece e sustenta. O espectador acompanha duas mulheres que aprendem a confiar, a dividir responsabilidades e a enfrentar juntas a dureza da vida. Essa naturalidade é, paradoxalmente, o que dá à série um peso imenso: ela nos lembra que o amor mais revolucionário pode nascer justamente nas rotinas mais banais.

O encontro das duas não é apenas romântico, mas simbólico: é sobre recomeços, sobre transformar perdas em novos capítulos de vida. O destaque aqui é a forma como elas lidam com os conflitos — sempre pela conversa e compreensão, nunca pelo embate.

Em uma cena emblemática, Wan precisa contar que recebeu ajuda da ex-namorada. Em muitas séries, isso viraria uma explosão de ciúmes; aqui, vira um diálogo maduro e honesto, que só fortalece o casal. Essa escolha narrativa é o que transforma Whale Store XOXO em um dos GLs mais realistas e inspiradores já produzidos.

O contraste: Tonnam e Chompoo

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JuneMewnich como Tonnam e Chompoo – Foto: Divulgação/GMMTV

Enquanto Wan e Maewnam oferecem estabilidade, o casal secundário, Tonnam (June Wanwimol) e Chompoo (Mewnich Nannaphas), traz a tensão de uma realidade social ainda muito presente: o dilema de sair do armário.

Chompoo, com medo de enfrentar a mãe, adia a revelação. Tonnam, por sua vez, vive a angústia de estar em um relacionamento escondido. A força do roteiro está em não transformar esse conflito em melodrama barato. Não há chantagens, não há ultimatos. O que vemos é uma relação marcada pelo respeito, pelo tempo individual de cada uma. É aqui que a química inesperada entre June e Mewnich brilha: vulnerabilidade, paciência, dor e amor coexistem em cada olhar. A série se torna ainda mais rica por reconhecer que nem todos os amores podem florescer em condições ideais, mas que a espera também é uma forma de amar.

O drama delas toca em uma ferida real da comunidade LGBTQIA+: o tempo certo de se assumir. A série mostra, com delicadeza, que não existe “pressão” nem prazo; cada pessoa precisa do seu próprio momento. E, quando Chompoo finalmente revela a verdade, a reação não é de explosão, mas de abraço e acolhimento.

Uma direção que escolhe a calma

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Whale Store – MilkLove – Foto: Divulgação/GMMTV

Em um mercado saturado por cortes rápidos e diálogos expositivos, a direção de Whale Store XOXO escolhe a lentidão. Cada cena parece respirar, permitindo que a emoção seja absorvida pelo público. A fotografia quente e acolhedora transforma a Whale Store em mais do que um cenário: é uma metáfora de memória, de herança, de continuidade. É um espaço onde o passado e o presente se encontram, onde as personagens podem recomeçar. A trilha sonora, quase sempre sutil, se recusa a manipular emoções; ela acompanha, nunca grita. Esse conjunto cria uma atmosfera quase poética, em que o silêncio muitas vezes diz mais que as palavras.

Mais do que uma história de amor, Whale Store XOXO é também uma homenagem à comunidade, à família e à cura emocional.
A própria Whale Store, a loja herdada por Wan, funciona como metáfora: um espaço antigo, cheio de memórias, que precisa ser reconstruído — assim como os personagens reconstruindo a si mesmos.

Com apenas 10 episódios, a série consegue equilibrar leveza e profundidade, entregando momentos poéticos, diálogos emocionantes e uma fotografia calorosa que transmite o clima acolhedor do interior da Tailândia.

O impacto cultural: suavidade como revolução

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Whale Store XOXO – Foto: Divulgação/GMMTV

Num cenário em que tantas produções GL ainda apostam em casais mal desenvolvidos e em tramas cheias de toxicidade, Whale Store XOXO ousa ser o contrário. Ele mostra que a suavidade pode ser revolucionária, que o respeito pode emocionar mais do que o ciúme, que o silêncio pode ser mais devastador que um grito. Ao apostar em relacionamentos saudáveis e narrativas maduras, a série não só entrega entretenimento, mas também se torna uma referência para onde o gênero pode e deve caminhar.

Conclusão: o legado da Whale Store

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Whale Store – MilkLove – Foto: Divulgação/GMMTV

No fim, Whale Store XOXO é muito mais do que uma série sobre uma loja de bairro. É uma obra sobre perdas e recomeços, sobre o poder dos pequenos gestos, sobre a coragem de amar sem barulho. Wan e Maewnam mostram que o amor é feito de escolhas diárias; Tonnam e Chompoo lembram que cada pessoa tem seu tempo; a Whale Store simboliza o espaço onde o passado se reconcilia com o futuro. Em sua calma quase subversiva, a série se torna um marco do GL tailandês e prova que não é preciso gritar para ser inesquecível. Às vezes, a verdadeira revolução acontece em silêncio.


Esse texto é uma colaboração especial de uma autora convidada 💖 As opiniões aqui expressas são pessoais e não refletem, necessariamente, a visão do No Mundinho do GL — mas adoramos abrir espaço pra múltiplos opiniões e perspectivas!

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